20.11.11

carta a uma senhorita em Paris


“Carta a una señorita en París” é mais um belo conto de Cortázar que transita entre o fantástico e o surreal. Como sugere o título, é escrito em forma de carta, endereçada a uma mulher que vive na capital francesa, amiga do narrador (ou narradora possivelmente, embora não seja uma questão relevante no conto), e cujo apartamento na calle Suipacha, em Buenos Aires, o missivista passou a ocupar por sugestão da proprietária.
O surreal é pressentido desde o começo, com a referência a objetos e nomes inventados: o jogo de violino e viola no quarteto de Rará, uma modulação de Ozenfant... Cortázar não tardará, no entanto, a revelar o que há de incomum no narrador (o fato de que vomita, de tempos em tempos, um filhote branco de coelho), mesmo porque parecerá algo previsível e até costumeiro conforme a narrativa avança e o fantástico se torna macabro:
“Cuando siento que voy a vomitar un conejito, me pongo dos dedos en la boca como una pinza abierta, y espero a sentir en la garganta la pelusa tibia que sube como una efervescencia de sal de frutas.”
A carta dedica-se em sua maior parte a descrever como o narrador convive com a anormalidade, como alimenta, faz crescer e se desfaz dos coelhos e como adaptou sua rotina ao apartamento da amiga. Os coelhos dormem de dia dentro de um armário, e o narrador solta-os e alimenta-os à noite, quando a empregada Sara, que de nada desconfia, está dormindo:
“Son diez, casi todos blancos. Alzan la tibia cabeza hacia las lámparas del salón, los tres soles inmóviles de su día, ellos que aman la luz porque su noche no tiene luna ni estrellas ni faroles.”
O que haverá de verdadeiramente inesperado e fantástico é a quebra da regularidade, a quebra de um rotina aparentemente normal, não fosse a origem dos coelhos. A tragédia será pressentida pelo fato de que o narrador perde o controle dos nascimentos, como se um limiar numérico fosse ultrapassado e deflagrasse o desastre:
“En cuanto a mí, del diez al once hay como un hueco insuperable. Usted ve: diez estaba bien, con un armario, trébol y esperanza, cuántas cosas pueden construirse. No ya con once, porque decir once es seguramente doce.”
A desgraça será dupla, e a destruição do apartamento a menor delas, num estilo que faz lembrar um filme B com animais aparentemente domésticos e domesticáveis insubordinando-se de forma violenta contra seus donos, o que não nos deixa esquecer certo gosto de Cortázar por fundir referências de baixa e alta cultura:
“Rompieron las cortinas, las telas de los sillones, el borde del autorretrato de Augusto Torres, llenaron de pelos la alfombra y tambiém gritaron, estuvieron en círculo bajo la luz de la lámpara, en círculo y como adorándome, y de pronto gritaban, gritaban como yo no creo que griten los conejos.”
A atitude macabra dos coelhos leva ao fim trágico, a morte dos coelhos e do próprio narrador (mais provável do que a de Sara), com seus corpos ensangüentados sobre a rua Suipacha: “Está este balcón sobre Suipacha lleno de alba, los primeros sonidos de la cuidad. No creo que les sea difícil juntar once conejitos salpicados sobre los adoquines, tal vez ni se fijen en ellos, atareados con el otro cuerpo que conviene llevarse pronto, antes de que pasen los primeros colegiales.” A carta bem pode ser, afinal, a carta de um suicida.
A graça do conto está no contraste entre o tom neutro, factual do narrador e o absurdo da situação que vive. Cortázar escreve-o com grande delicadeza. Há belas imagens sobre as menores coisas, desde a natureza dos pequenos coelhos (“y después tan no uno, tan aislado y distante en su llano mundo blanco tamaño carta”) ou à sua noite diurna dentro do armário (“en su cúbica noche sin tristeza duermen once conejitos”) até os objetos do apartamento emprestado (“me va calcinando por dientro e endureciendo como esa estrella de mar que ha puesto usted sobre la bañera y que a cada baño parece llenarle a uno el cuerpo de sal y azotes de sol y grandes rumores de la profundidad”).
Um conto macabro e belo, que faz jus à habilidade de Cortázar de naturalizar o fantástico e o surreal e de mostrá-los muitas vezes com um toque poético deliciosamente inadqueado para o tema que descreve.

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