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25.3.12

Hedda Gabler


“Hedda Gabler”, a personagem que dá título à peça de Henrik Ibsen, é uma arrogante, egocêntrica e entediada filha de um general já falecido. Com pendores aristocrátcos, mas sem paixão alguma, casa-se com um acadêmico e torna-se Hedda Tesman, o que em nada muda sua insensibilidade e egoísmo. Em torno dela, e por sua ação, ocorrerão pequenos conflitos, algumas mortes, previsíveis ou não. Em lugar de movê-la de seu tédio, esse conjunto de perversões domésticas aumenta sua desilusão e indiferença diante da vida. Num gesto banal, quase corriqueiro, Hedda comete o ato extremo.
A peça tem a contenção e a frieza da Noruega de Ibsen. Não gira em torno de grandes temas sociais, eventos históricos ou paixões arrebatadoras. Trata de relações familiares doentias, de diferenças sutis de classe, de personagens desapaixonados. A motivação do dramaturgo parece ser a de criar um ser gélido e seu pequeno império de manipulação familiar, que determina a vida dos personagens que a cercam como peças de um jogo caprichoso. O cenário ideal deste jogo é o salão de Hedda Tesman, onde o marido, o conselheiro e os amigos orbitam em torno da personalidade forte da anfitriã. Vive-se o formalismo banal, a frieza do mundanismo, regidos pela atitude doentia da protagonista. De anormal e transgressor há apenas a figura de Lövborg, ex-amigo e pretendente de Hedda, que morre por seus excessos, em parte pelas mãos dela mesma, que quer vingar-se dele por conta de sua relação com uma conhecida, Thea Elvestad. Genialidade e paixão não têm lugar no salão do casal Tesman.
Ibsen constrói sua peça com pequenos movimentos, mudanças e gestos sutis, que revelam o caráter de Hedda, como a cena do chapéu de Julie Tesman, da troca do nome de Thea (Thora), da oferta de bebida a Lövborg. As mudanças do cenário funcionam como um relógio ao longo de um dia (o piano em novo lugar, a vela queimando, portas e cortinas que se abrem e fecham), tão delicadas como a escolha das palavras. Mesmo os grandes gestos e rupturas, como o tiro simulado no conselheiro, a queima do manuscrito de Lövborg e o suicídio, são marcados pela indiferença da protagonista, o que retira qualquer elemento trágico da história. Uma tragédia requer sentimentos e desejos fortes, causas elevadas ou grandes injustiças, tudo o que não se encontra no mundo pequeno da entediada Hedda e de seu círculo de cultivadores. É a frieza dos personagens e de seu meio, que Ibsen quer mostrar-nos de maneira igualmente fria e desapaixonada.

6.2.12

Yerma


Yerma casa-se com Juan e quer ter filhos. Os anos passam, seu marido pensa mais no trabalho do campo, suas amigas parem, mas Yerma só faz angustiar-se com o filho que não vem. Chega a enamorar-se de outro homem, Victor, mas sua moral rígida a impede de trair Juan. Recorre então a rezas e simpatias, mas nada resolve seu problema e sua angústia, que acabam por minar a relação com o marido. Revoltada com a esterilidade do casamento, com a frieza de Juan, Yerma estrangula-o até a morte.
“Yerma” é uma peça em forma de poema trágico do espanhol Federico García Lorca. A força do texto de Lorca inspirou outros criadores, como Paul Bowles e nosso Heitor Villa-Lobos, que compuseram óperas baseadas na peça. 
A julgar por Lorca e outros poetas de Espanha, as mulheres espanholas parecem combinar de maneira espontânea e natural com as paixões violentas, com o vermelho das mortes trágicas, como em “Carmen” ou “A Casa de Bernarda Alba”. A dificuldade de uma peça como “Yerma” é, no entanto, a de construir a violência do trágico a partir do sentimento da esterilidade, que, por mais intenso que seja, está mais associado à retração do que ao impulso, à passividade do que à agressividade. O resultado é que a trama de Lorca parece por vezes um tanto artificiosa e exorbitante mesmo para os padrões hiperbólicos de uma tragédia. Não que a dor de uma mãe frustrada não seja extraordinariamente intensa. Apenas não é tão comodamente conciliável com a violência trágica quanto outros sentimentos e condições mais comumente encontrados em tragédias, como o amor interdito, a traição ou a perda do outro.
Daí que o melhor de “Yerma” não é a trama, mas a língua de Lorca. Há belas imagens e canções: “pero la noche que nos casamos me lo decía constantemente con su boca puesta en mi mejilla, tanto que a mí me parece que mi nino es un palomo de lumbe que él me deslizó por la oreja” ou “cada mujer tiene sangre para cuatro o cinco hijos, y cuando no los tienen se le vuelven veneno, como me va a pasar a mí.” 
Como na bela "Casa de Bernarda Alba", Lorca volta ao tema da tensão dos valores tradicionais, à dificuldade de seguir a moral rígida em sociedades arcaicas, o dilema do adultério e da fidelidade. Confrontam-se honra e prazer, moral e liberação, a casa da ordem e a rua das fofocas e desvios. Do confronto nasce a exasperação, a tensão, até a ruptura trágica, como se a rigidez dos valores levasse inevitavelmente à explosão dos impulsos mais profundos e violentos do homem.
Entre os personagens da peça, Yerma é naturalmente a figura de maior presença, com a lenta transformação do seu desejo em obsessão trágica. Mais interessantes são, no entanto, as mulheres anônimas de Lorca: as lavadeiras, as muchachas, as velhas, que aparecem ou como figuras místicas e sábias ou como fofoqueiras, agentes da intriga. Cantam como nos coros das tragédias gregas e preenchem a história com certa magia. Há sempre um toque de fatalidade e de sombras em sua aparição, como se anunciassem o final trágico. São elas que caracterizam a tragédia espanhola: a mulher passional e misteriosa se expressa por suas falas e gestos.

15.5.11

pastoral americana


Philip Roth é um grande narrador e um refinado comentarista da vida moderna. Seu “American Pastoral”, apesar de um pouco longo para a história que conta, é um belo livro, que relata o inferno vivido por uma família-modelo de classe média americana aparentemente a caminho do paraíso na terra e no céu. A superfície plácida do sonho americano esconde muitas vezes o fio da tragédia. “Pastoral Americana” é um título que ironiza e homenageia o romance clássico de Theodore Dreiser, “An American Tragedy”. 
O “Sueco”, Seymour Levov, é um judeu, que nasceu em bairro de classe média judia e prosperou nos esportes, como grande atleta, nos negócios, herdando a fábrica de luvas do pai, e no casamento, ou assim ele achava. Essa pastoral americana implode quando sua filha adorada e gaga resolve entrar para a guerrilha urbana nos EUA contra a Guerra do Vietnã e explode o correio local, matando um médico que lá passava. Daí para diante é um desenrolar de novas dores: vida clandestina da filha, novos atentados, internação da mulher, assédio de supostos companheiros da filha na guerrilha, personalidade intrusiva do pai-patriarca, agressividade do irmão, decadência da fábrica, adultério da mulher, reencontro com a filha, que vira uma “jaina” (seguidora do jainismo), tudo nas costas do inabalável e invulnerável “Sueco”. "Invulnerabilidade" que o leva ao câncer e à morte. O livro é um recontar circular, pelo colega de escola do irmão e fã, tornado escritor bem sucedido, da pastoral inicial e da tragédia final que fazem a vida do “Sueco”.
Roth é genial no trágico: cria situações sufocantes, como os encontros de Levov com os companheiros da filha que o chantageiam, o reencontro com a filha no quartinho sórdido, o jantar final com suas alfinetadas, crises e uma cena memorável de adultério. Ele só é maçante, e não poderia ser diferente, no banal: cansam um pouco as descrições das atividades do ramo das luvas de couro e as digressões sobre o concurso de miss da mulher do “Sueco”. Exasperam até, porque Roth leva ao exagero a técnica de criar suspense e curiosidade no leitor pela quebra da narrativa principal, para entremeá-la com reflexões do passado ou descrições exaustivas do presente.
Essa auto-indulgência se observa também em alguns diálogos. O tempo psicológico, com as reflexões dos personagens, atrasa o tempo das falas, e o que se ganha em densidade se perde em verossimilhança. Mas, do ponto de vista técnico, Roth usa brilhantemente a narrativa em estilo indireto livre (“free indirect style”), em que a voz em terceira pessoa se funde aos pensamentos e ações do protagonista. O texto é narrado em primeira pessoa por um escritor que  relata a vida do protagonista, o que na prática generaliza a terceira. Mas a terceira contamina-se pela voz em primeira pessoa do protagonista, fechando o ciclo. A técnica é sutil, provoca empatia com o personagem, embora não seja muito fácil criar identificação com um protagonista socialmente correto ao ponto da auto-anulação, como o “Sueco” Levov.
“Pastoral Americana” é um bom exemplar da inspirada biblioteca legada pelos escritores judeus norte-americanos do pós-Guerra. Se Roth não atingiu aqui a altura de um Bellow ou de um Singer, juntou mais um romance à sua lista de grandes livros.

5.5.11

os Maias

“Os Maias” é, entre tantas coisas, um passar de olhos afetuoso e crítico sobre Portugal, talvez mais melancolicamente crítico do que abertamente afetuoso. Há sim um carinho pelas coisas natais, um elogio ligeiro da espontaneidade, uma ternura por algumas paisagens, como a de Sintra, muito mais do que a de uma Lisboa tão presente, mas o que ressalta no livro é o tom de auto-ironia, uma certa vergonha desavergonhada dos vexames locais, dos arroubos sentimentais, das brigas patéticas, da bagunça no meio público, da indolência, da desordem, sempre contra o pano de fundo das civilizações supostamente mais altas, da fleugma do estrangeiro, dos setentrionais, em especial dos ingleses, personificados em tantas figuras, como Craft, Clifford, a governanta Sara, e mesmo por esse admirador da Inglattera onde viveu, que é o avô Afonso da Maia, com todo o seu estoicismo e urbanidade.

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A descrição inicial que Eça de Queiroz faz do Ramalhete, residência dos Maias em Lisboa, é inegavelmente elegante, mas soa hoje, já quase um século e meio depois, um tanto “literária” demais, com muita adjetivação, algumas metáforas que perderam força e sobretudo uma atenção maior ao dizer do que ao dito. Está ali o gênio, mas um tanto datado nesse tipo de descrição. Há melhores metáforas na descrição dos Olivais, residência de campo que Carlos comprou de Craft para abrigar Maria Eduarda.
De qualquer modo, muito melhor é o reencontro final com o Ramalhete, quando Carlos Eduardo da Maia e João da Ega retornam, cheios de melancolia, apenas para uma última espiada no casarão fechado. Quando se trata da descrição de ambientes ou lugares, Eça brilha mais na melancolia do que na glória.

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O tema central do começo de “Os Maias” é a decepção de um pai ante o filho. Afonso da Maia vê em Pedro, desde a infância, um filho fraco, dependente, inseguro de si, e não o perdoará por isso, especialmente após o casamento de Pedro com Maria, a bela filha de um ex-traficante de escravos açoriano. O desprezo de classe pelo casamento inadequado se junta às expectativas frustradas ante um filho que não estava à altura do pai, orgulhoso e inflexível no seu amor condicional. É muita bonita a cena da volta do filho à casa paterna, depois da traição da mulher. Afonso decepciona-se uma vez mais e, após o suicídio de Pedro, irá consolar-se com a vivacidade do neto, Carlos Eduardo, que – sente com as próprias mãos de avô – restauraria a virilidade, a dignidade dos Maias. É muito triste a decepção final de Afonso com o destino implacável, que também arrastará Carlos Eduardo a uma paixão impossível.

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Afonso da Maia, sobre a educação do neto, Carlos, a seu cargo:
“O latim era um luxo de erudito. Nada mais absurdo que começar a ensinar uma criança numa língua morta quem foi Fábio, rei dos Sabinos, o caso dos Gracos, e outros negócios de uma nação extinta, deixando-o ao mesmo tempo sem saber o que é a chuva que o molha, como se faz o pão que come, e todas as outras cousas do universo em que vive...
            -- Mas enfim os clássicos – arriscou timidamente o abade.
            -- Qual clássicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é necessário ser são, e ser forte. Toda a educação consiste nisso: criar a saúde, a força e seus hábitos; desenvolver exclusivamente o animal, armá-lo de uma grande superioridade física. Tal qual como se não tivesse alma. A alma vem depois... A alma é outro luxo. É um luxo de gente grande...”

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Eça, sobre Carlos Eduardo da Maia, ou sobre tantos de nós:
“... suas ambições flutuavam, intensas e vagas; ora pensava numa clínica; ora na composição maciça de um livro iniciador; algumas vezes, em experiências fisiológicas, pacientes e reveladoras... Sentia em si, ou supunha sentir, o tumulto de uma força, sem lhe discernir a linha de aplicação. “Alguma cousa de brilhante”, como ele dizia; e isto para ele, homem de luxo e homem de estudo, significava um conjunto de representação social e de atividade científica; o remexer profundo de idéias entre as influências delicadas da riqueza; os elevados vagares da filosofia, entremeados com requintes de esporte e de gosto; um Claude Bernard, que fosse também um Morny... No fundo era um diletante.”

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E sobre João Ega, seu alter-ego, ou melhor, sobre “O Livro do Ega”:
“O Livro do Ega! Fora em Coimbra, nos dous últimos anos, que ele começara a falar do seu livro, contando o plano, soltando títulos de capítulos, citando pelos cafés frases de grande sonoridade. E entre os amigos do Ega discutia-se já o livro do Ega como devendo iniciar, pela forma e pela idéia, uma evolução literária. (...) Bacharéis, contemporâneos ou seus condiscípulos, tinham levado de Coimbra, espalhado pelas províncias e pelas ilhas a fama do livro do Ega. Já de qualquer modo essa notícia chegara ao Brasil... E sentindo esta ansiosa expectiativa em torno do seu livro – o Ega decidira-se enfim a escrevê-lo.”

Deveria chamar-se “Memórias de um Átomo”, “tinha a forma de autobiografia” e seria “uma epopéia em prosa”, “dando sobre episódios simbólicos, a história das grandes fases do Universo e da Humanidade”. A ironia de Eça...

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Que delícia a briga de impropérios e sopapos – mais impropérios que sopapos, é verdade – entre Ega e Alencar. De um lado, o jovem realista, iconoclasta; de outro, o velho lírico romântico. Mais deliciosa ainda, e a nós tão familiar, é a rápida reconciliação, calorosa e emotiva. E Craft, o inglês, só observa: “Já presenciara, mais vezes, duas literaturas rivais engalfinhando-se, rolando no chão, num latir de injúrias; a torpeza do Alencar sobre a irmã do outro fazia parte dos costumes da crítica em Portugal (...).”

“O autor de Elvira deu um passo, o autor das Memórias de um Átomo estendeu a mão; mas o primeiro aperto foi guache e mole. Então, Alencar, generoso e rasgado, exclamou que entre ele e o Ega não devia ficar uma nuvem! Tinha-se excedido... Fora o seu desgraçado gênio, esse calor de sangue, que durante toda a existência só lhe trouxe lágrimas! E ali declarava bem alto que Ana Craveiro era uma santa! Tinha-a a conhecido em Marco de Canaveses, em casa dos Peixotos... Como esposa, como mãe, Ana Craveiro era impecável. E reconhecia, no fundo da alma, que o Craveiro tinha carradas de talentos!....
Encheu um copo de Champagne, ergueu-o alto, diante do Ega, como um cálice de altar:
            -- À tua, João!
Ega, generoso também, respondeu:
            -- À tua, Tomás!
Abraçaram-se. Alencar jurou que ainda na véspera, em casa de D. Joana Coutinho, ele dissera que não conhecia ninguém mais cintilante que o Ega! Ega afirmou logo que em poemas nenhuns corrria, como nos do Alencar, uma tão bela veia lírica. Apertaram-se outra vez, com palmadas pelos ombros. Trataram-se de irmãos na arte, trataram-se de gênios!...”

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Mas o diálogo, e a vileza que ali está, não fazem justiça a este personagem extraordinário que é o poeta Alencar, tão intenso em sua relação com a vida, os amigos e a literatura. Basta citar uma passagem em que se exalta de modo tocante:

“-- Sempre queria que ele provasse este bacalhau! Já que me não aprecia os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto é um bacalhau de artista em toda a parte!... Noutro dia fi-lo lá em casa dos meus Cohens; e a Raquel, coitadinha, veio para mim e abraçou-me... Isto, filhos, a poesia e a cozinha são irmãs! Vejam vocês Alexandre Dumas... Dirão vocês que o pai Dumas não é um poeta... E então, D’Artagnan é um poema... É a faísca, é a fantasia, é a inspiração, é o sonho, é o arroubo! Então, poço, já vêem vocês, que é poeta!... Pois vocês hão de vir um dia desses jantar comigo, e há de vir o Ega, hei de vos arranjar umas perdizes à espanhola, que vos hão de nascer castanholas nos dedos!... Eu, palavra, gosto do Ega! Lá essas cousas de realismo e romantismo, histórias... Um lírio é tão natural como um percevejo... Uns preferem fedor de sarjeta; perfeitamente, destapa-se o cano público... Eu prefiro pós de marechala num seio branco; a mim o seio, e, lá vai à vossa. O que se quer, é coração. E o Ega tem-no. E tem faísca, tem rasgo, tem estilo... Pois, assim, é que eles se querem, e, lá vai à saúde do Ega!”
Pousou o copo, passou a mão pelos bigodes, e rosnou mais baixo:
            -- E, se aqueles ingleses continuam a embasbacar para mim, vai-lhes um copo na cara, e é aqui um vendaval, que há de a Grã-Bretanha ficar sabendo o que é um poeta português!...”

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Afonso da Maia, sobre o português: “O português nunca pode ser homem de idéias, por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a idéia, deixá-la incompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita... Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.”
O neto, Carlos da Maia, contesta: “(...) E resta saber por fim se o estilo não é uma disciplina do pensamento. Em verso, o avô sabe, é muitas vezes a necessidade de uma rima que produz a originalidade de uma imagem... E quantas vezes o esforço para completar bem a cadência de uma frase não poderá trazer desenvolvimentos novos e inesperados de uma idéia.. Viva a bela frase!”

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A menção ao sexo entre Carlos da Maia e a Condessa de Gouvarinho dentro de um coupé de praça nos faz lembrar a relação de Emma Bovary com seu amante Léon dentro de uma carruagem a toda carreira na Rouen de Flaubert. Mas Eça não quer, trinta anos depois, copiar o francês. Trata-se apenas de uma evocação, uma lembrança ligeira, que talvez seja uma homenagem a Flaubert e à cena marcante de seu romance.
Já sobre Victor Hugo, o que fica é o comentário do senhor Guimarães, quando indagado sobre o escritor francês por João da Ega:
            “-- Esse, meu caro senhor, não é um homem, é um mundo!”

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Apesar do humor, da vivacidade, da aparente leveza, Eça nos oferece, com “Os Maias”, uma visão desiludida e fatalista de Portugal, da vida em família, da vida. Por trás da elegância e da graça dos personagens, há o fio condutor da tragédia, recorrente, que se abate sobre Afonso, sobre Pedro, sobre Carlos, três gerações de uma mesma família. Eça ironiza a si mesmo com o elemento folhetinesco do livro, a paixão entre os dois Eduardos, Carlos e Maria, entre os dois irmãos que não se sabiam irmãos: “E agora, pouco a pouco, subia nele uma incredulidade, contra esta catástrofe de dramalhão.” Tudo está preparado para o final agridoce, mais amargo que doce na verdade, sintetizado na frase de João da Ega: “Falhamos a vida, menino!” É um final bonito e melancólico, como o livro todo.
Portugal também é visto com lentes da desilusão, uma autocrítica ligeiramente amarga. Fatalismo que está um pouco na alma portuguesa, como na dor do fado.
Pela construção – que contrapõe o peso da vida de Pedro à leveza da vida de Carlos –, pela elegância do estilo, “Os Maias” não é senão um grande romance. Se há algo que reprovar, são características próprias do período, do romance longo de então, à Balzac: talvez um excesso de personagens, a convivência com algumas figuras, como Taveira, Siqueira, que mal aparecem, só com um traço, uma referência, um gesto, dizem algo rápido e logo somem, deixando-nos a sensação de casa abarrotada em dia de festa, em que não conhecemos ou não nos interessamos por muitos dos convidados. Mesmo no Ramalhete, há pouco espaço para tanta gente.
A grande lição de Eça talvez seja o mot juste, a graça, a elegância do escrever, que pode transformar uma banalidade em algo sublime. Eça é um mestre na pintura de reuniões sociais, na criação de tiradas, em seu humor fino e iconoclasta. É menos genial no retrato do amor: basta ver como são convencionais a declaração e o primeiro beijo entre Carlos e Maria Eduarda. 

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O alter-ego de Eça é, naturalmente, João da Ega, esse personagem efervescente. Espirituoso, brilhante, corrosivo, Ega tem todo o potencial para o gênio e a glória, mas dispersa-se na indolência e no prazer da vida, afinal tem mais vocação para a crítica cortante do que para a criação laboriosa. Nada escapa à sua iconoclastia: ele pode até defender a escravatura. É um talento perdido, como o de Carlos também, indeciso entre a medicina e as letras, entre o berço e o trabalho. Quando lhe perguntam por que não entra para a diplomacia portuguesa, Ega responde: “Por fim, em que consistia a diplomacia portuguesa? Numa outra forma da ociosidade, passada no estrangeiro, com o sentimento constante da própria insignificância. Antes o Chiado!”
Esse Ega muito mais emotivo que racional está na paixão pela Cohen, nas brigas com Alencar, na amizade por Carlos. É o que explica sua reação um tanto carola, nada iconoclasta, quando sabe do incesto inconsciente entre Carlos e Maria.
Fica aqui uma passagem que dá bem uma idéia de João da Ega:

“(...) Depois, no corredor, confessou a Carlos que, antes de ir ao Espanhol, queria correr ao Fillon, ao fotógrafo, ver se podia tirar um bonito retrato.
            -- Um retrato?
-- Uma surpresa que tem de ir daqui a três dias para Celorico, para o dia de anos de uma criaturinha que me adoçou o exílio.
            -- Oh, Ega!
            -- É horroroso, mas então? É a filha do Padre Correia, filha conhecida como tal; além disso, casada com um proprietário rico da vizinhança, reacionário odioso... De modo que, bem vês, esta dupla peça a pregar à Religião e à Propriedade...
            -- Ah! Nesse caso...
            -- Ninguém deve eximir, amigo, aos seus deveres democráticos!”

4.5.11

esaú e jacó

Que Machado de Assis foi, senão o maior, um de nossos maiores escritores, e que os romances de sua fase madura são o que de melhor escreveu, não há o que questionar. Mas será “Esaú e Jacó”, o seu penúltimo romance, que ao lado do precioso “Memorial de Aires” marca a fase mais filosófica do autor, um livro à altura dos demais?
“Esaú e Jacó” não nos dá nem uma grande história nem uma boa filosofia. A trajetória dos gêmeos e de Flora é um tanto aborrecida, e as reflexões esparsas sobre o tempo, embora interessantes, são quase sempre pouco costuradas ou justificadas pelo contexto. Já quase no fim de sua brilhante carreira, Machado parece escrever sem entusiasmo, imaginação ou disciplina; seguro de seu brilho, solta a pena, opiniático e leve, sem o rigor das obras imediatamente anteriores.
A história é simples e começa bem, com uma mistura de enigma bíblico e de profecia trágica grega. O título já faz antecipar a suspeita, evocando a usurpação da progenitura de Esaú por Jacó, que a pitonisa/mãe de santo lançará com sua mensagem críptica: os futuros gêmeos serão grandes, mas por que parecem brigar já no ventre da mãe? A idéia de gêmeos brigando antes de nascer é provocadora, ainda mais quando cercada pela aura de mistério de um pronunciamento vindo de um oráculo em pleno morro. Pena que a história da rivalidade entre Pedro e Paulo, entre o monarquista e o republicano, e do amor pela mesma mulher, Flora, se arraste sem maior graça e acabe de modo pouco convincente com a morte da moça, marcada pela angústia de não querer amar nenhum dos dois por não poder renunciar a nenhum dos dois. A trama sustenta-se numa dúvida insustentável, a de Flora, que não sabe quem ama e morrerá por não saber.
Machado não encanta com a história nem com seus artifícios e reflexões, brilhantes em outros livros. Começa com a justificativa para o texto, que é confusa; o livro seria a parte final do “Memorial de Aires”, um de seus cadernos, embora o próprio Aires apareça retratado em 3a pessoa, como um personagem externo a ele mesmo, e não como narrador de um diário, como no próprio “Memorial”. “Esaú e Jacó” seria, segundo Machado, uma história “escrita como pensamento interior e único”, o que justificaria seu tratamento em separado, mas não a mudança ilógica do foco de narração.
Machado é mestre no estilo conversacional, na conversa com o leitor, mas em “Esaú e Jacó” as paradas freqüentes para o bate-papo enfraquecem a trama sem colocar algo único e indispensável no lugar. Na verdade, as reflexões e conversas sobre as dificuldades do contar, sobre a estrutura do texto, sobre a escolha de palavras e de capítulos mal esconde o desinteresse da trama. Machado parece tão desinteressado quanto o leitor, e foge a todo momento de seus personagens. O excesso de digressões leves e o tom zombeteiro soam como se a própria história e os personagens não fossem sérios ou merecessem a seriedade do leitor. O problema é que, ao contrário do que diz no livro, nem Machado pode sacralizar o banal. A idéia de que “a mesma banalidade na boca de um bom narrador faz-se rara e preciosa” tem seus limites. O preço que Machado paga pela leveza é o de personagens rasos, para usar a categoria de Forster. A leveza de Machado costuma ser sublime por alguns aspectos de seu texto, a começar pela recusa ao naturalismo descritivo (descrever é enfadonho, ele nos diz), mas a leveza torna-se trivial quando o autor não consegue dar densidade aos personagens ou às idéias.
Há momentos de gênio, no entanto, afinal um Machado menor é ainda um Machado. Basta lembrar a cena em que Aires diz que ajudará Flora e faz o contrário, recomendando a Batista que aceite a presidência de província: ele o faz por sadismo, ceticismo, frieza, sabedoria? Há algo de enigmático na cena, que proporciona um grande efeito. “Esaú e Jacó” traz ainda elementos importantes e recorrentes em toda a obra do escritor, como a desilusão sutil com a mesquinharia (do irmão das almas com sua esmola de mil réis; de Santos com seus parentes; do vendedor de gravuras), com a curiosidade (de Natividade e de Santos) e com o oportunismo político (de Batista e sua mulher Cláudia). Há também boas reflexões sobre o tempo e o nada, sobre o tempo que não pode ser capturado, sobre a imortalidade. Pena que nem estes brilhos esparsos do bom e velho Machado consigam dar vida ao livro.