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2.5.11

ruínas circulares

Muito bonito e imaginativo é o conto “Ruínas circulares”, de Borges. Aqui não há referência a livros ou autores imaginários. Tão-somente uma bela idéia desenvolvida em forma de história: a possibilidade de que alguém crie, por meio do sonho, um personagem que se torne real. O protagonista, um aldeão que navega rio abaixo e vive a dormir sob o abrigo das ruínas de um templo, sofre a obsessão: “Quería soñar un hombre; quería soñarlo con integridad minuciosa e imponerlo a la realidad”. Eis aqui o sonho último do artista, em particular da literatura.
Borges conta as conquistas e desilusões do personagem sonhador, que alterna fases de sono permanente e crises de insônia, abstinências de sonhos e sonhos induzidos, sempre desta que é a matéria mais imponderável: “el empeño de modelar la materia incoherente y vertiginosa de que se componen los sueños es el más arduo que puede acometer un varón.” O protagonista faz por fim um pacto com o deus fogo do templo em que se abriga, e consegue criar e fazer viver sua criatura, seu filho. Este deve abandoná-lo, deixando-lhe apenas o receio de que o filho viesse a saber que não passava de produto da imaginação. O final do conto é tipicamente borgiano, circular, infinito, como o título já sugere: “Con alivio, con humiliación, con terror, comprendió que el también era una aparencia, que otro estaba soñandolo.”  

1.5.11

o jardim dos caminhos que se bifurcam


Em “El jardín de senderos que se bifurcan”, de Borges, há dois núcleos independentes, dois temas, uma história e uma idéia, arbitrariamente conectados, que dividem nossa atenção. É a história da fuga, na Inglaterra, de um espião chinês que serve ao Governo alemão durante a Primeira Guerra e que, para transmitir a seus chefes o segredo da localização de uma nova base militar inglesa, irá assassinar um homem com o mesmo nome da cidade onde será instalada, Albert. Já a idéia imaginada por Borges é a de um “jardim de caminhos que bifurcam”, projeto e obsessão do falecido avô do espião chinês, que alguns pensam ser um labirinto gigantesco escondido nas montanhas, mas que na verdade é um romance na forma de labirinto, onde as partes se intercomunicam e subvertem a ordem normal do tempo e da narrativa. É uma espécie de livro-vertigem, que ninguém havia compreendido e que dá voltas sobre si mesmo, sem fim, idéia tão borgiana – infinita, absurda -- quanto a Biblioteca de Babel. “Creía en infinitas series de tiempos, en una red creciente y vertiginosa de tiempos divergentes, convergentes y paralelos.” A unir história e idéia há o sinólogo Stephen Albert, que revela ao protagonista o segredo do labirinto do seu avô e será, com sua morte, o mensageiro involuntário do segredo militar.
O conto seduz pela curiosidade que nos causam tanto a história do espião quanto a idéia do romance circular, mas não deixa de soar arbitrária a sobreposição de uma coisa e outra, como se Borges quisesse aproveitar num mesmo conto duas idéias intrigantes mas dissociadas.

30.4.11

a Biblioteca de Babel


Entenda-se ou não como conto, chame-se de narrativa curta ou qualquer outro nome, o fato é que “A Biblioteca de Babel”, de Borges, é um exercício de imaginação. A Biblioteca é o universo, e se não é infinita, a questão é irrelevante, já que seus limites são inacessíveis ao homem. Não há existência fora dela, ela abarca tudo. Lá estão os homens e todas as possibilidade de combinações de 25 símbolos (22 letras, espaço, ponto, vírgula) em livros de quatrocentos e dez páginas, com todos os idiomas e formas criptográficas possíveis, distribuídos em salas hexagonais que se comunicam por meio de pequenos vãos com outras salas hexagonais ao lado e acima, como uma colmeia perfeitamente geométrica e sem fim. A grandiosidade do universo é melhor percebida na morte: a sepultuta dos homens ocorre no “ar insondável”, ao vento da queda do corpo no fosso que atravessa as colunas de hexágonos e nunca termina: “mi cuerpo se hundirá largamente y se corromperá y disolverá en el viento engendrado por la caída, que es infinita”. Borges aproveita sua Biblioteca para lançar outras imagens geniais, como a idéia do “livro cíclico de Deus”, cuja lombada envolve uma sala circular, ou do livro de folhas de espessura infinitesimal que poderia conter todos os livros; a idéia do falso predomínio do caos e da falta de sentido sobre a plausibilidade (já que mesmo a esmagadora maioria dos livros com combinações aparentemente aleatórias podem fazer sentido em linguagens que não dominamos, não havendo “un solo disparate absoluto”); “las interpolaciones de cada libro en todos los libros”; a busca pelos homens do livro sobre seu futuro entre tantos livros sem sentido e tantas biografias futuras falsas de si mesmo; a busca do livro que revela a origem do Universo/Biblioteca; a busca do livro que “sea la cifra y el compendio perfecto de todos los demás”...
            A Biblioteca de Babel é, ao mesmo tempo, a metáfora da vida de Borges, em que o mundo são os livros, e o melhor espelho de sua imaginação vertiginosa.