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15.1.12

o jogo dos papéis


“O jogo dos papéis” (Il giuoco delle parti) é um peça de teatro filosófica e surrealista de Luigi Pirandello. Nela, um homem procura afastar-se de seus próprios sentimentos e agir conforme a vontade alheia, particularmente a de sua mulher. Sempre lhe diz sim e lhe dá liberdade total, não se importando que ela viva sozinha e tenha outros relacionamentos. Exasperada com o comportamento submisso do marido, ela o leva a aceitar um duelo com um hábil esgrimista. Na última hora, ele renuncia a seu papel de provedor das vontades alheias e consegue fazer com que não mais ele, mas o amante de sua mulher, assuma o desafio e o duelo. Livre, retorna ao vazio de sua vida.
Pirandello criou uma peça estranha e incômoda, que parte de duas idéias básicas, duas teses. A primeira é a de que não só é possível desligar-se dos desejos e sentimentos pessoais, encarnando um personagem à mercê dos desejos alheios; haveria mesmo certa sabedoria e autodefesa em abandonar o próprio ego: o personagem que representa esse budismo laico de Pirandello é Leone Gala, o marido. A segunda idéia é a de que a liberdade total é uma prisão quando concedida, já que o gesto de concessão da liberdade anula o seu caráter libertador, como demonstrado pelo comportamento da mulher de Leone, Silia.
Com base nessas hipóteses, Pirandello cria um conflito entre dois pólos inconciliáveis -- Leone e Silia, renúncia e liberdade, nada querer, tudo querer. O casal Gala é complementado pela figura do amante de Silia, Guido Venanzi, vítima da dupla justamente por não encontrar papel no jogo neurótico que eles constroem. O triângulo circula pela peça movido por diálogos pouco verossímeis, com um toque surrealista, e por uma trama fácil, um tanto tola, que vai da invasão de domicílio da esposa à obrigação de desafiar o invasor ao duelo. São situações e diálogos que não sustentam ou aprofundam a caracterização dos personagens, e o resultado é uma peça de alguma ousadia mas de pouca graça. “O jogo dos papéis” não chega, portanto, ao nível das melhores peças de Pirandello, como “Assim é se lhe parece” ou “Seis personagem à procura de um autor.”

7.6.11

a consciência de Zeno

“A Consciência de Zeno”, de Italo Svevo, não deixa de causar estranheza. É o relato, ao psicanalista, feito por um homem angustiado com suas manias – dores inexplicáveis, fumo compulsivo, obsessão por mulheres. Zeno Cosini, o protagonista, num exercício de auto-revelação, confessional, discorre sobre o percurso de suas fraquezas, e o resultado é o retrato de uma vida desinteressante, a história de um anti-personagem literário, mais marcada pela mediocridade e por uma discreta vilania do que por gestos generosos ou trágicos.
Zeno divide seu relato em cinco partes, as grandes questões da sua vida: o fumo, a morte do pai, o casamento, a amante, a associação comercial. No capítulo “Fumar”, revela a inconformidade com seu vício e a incapacidade de superá-lo, como se o grande vício fosse a compulsão de tentar abandoná-lo, sempre sem sucesso. A obsessão com datas inaugurais, com metas de refazer-se, dá a medida do personagem mediano que nos acompanhará o livro todo. “A morte de meu pai” é o capitulo mais tocante, pela relação de amor e ódio entre os dois, e pela agonia final do pai. Como diz Zeno, “eu compunha versos à sua memória, mas compor versos não é chorar”. O trauma da morte é resumido na frase exemplar do protagonista: “eu me lembro de tudo, mas não compreendo nada.”
Em “História do meu casamento”, Zeno relata a paixão por Ada, a rivalidade com Guido, as propostas frustradas de casamento a Ada e à irmã Alberta, e ainda a proposta bem sucedida à terceira e menos interessante das três irmãs, Augusta, sua mulher de vida inteira. O caso com Carla é contado em “A esposa e a amante”, em que Zeno revela todos os seus pequenos ardis e fraquezas na relação com as duas. Finalmente, em “História de uma associação comercial”, Zeno fala da relação profissional com Guido, seu concunhado e sócio, cujas aventuras financeiras levam a um desfecho trágico que nem Zeno, solidário e já sem o rancor pelo casamento de Ada com Guido, consegue evitar. O relato final ao psicanalista, em que Zeno critica o método, especialmente a ênfase no Complexo de Édipo, pouco acrescenta à construção de uma personalidade esmiuçada em suas facetas mais mesquinhas e baixas.
O mérito do livro é transformar o demasiadamente humano em literário, embora nem sempre a pobreza de espírito, para o bem ou para o mal, encante. Talvez seja isso que Joyce e tantos outros tenham admirado no livro de Svevo.