Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens

16.6.11

Blue Note, Nova York

Não há como se mover no Blue Note. Se tivessem anunciado que Miles e Coltrane ressuscitaram e voltariam a tocar juntos esta noite, não caberia uma alma a mais.
O caminho até o palco é longo e estreito. Dave Brubeck está atrás do garoto do bar, com as duas mãos apoiadas em seus ombros, e seguem devagar, como duas crianças perfiladas na entrada do jardim de infância. “Jazz goes to kindergarten” seria um bom nome para um disco novo. O rapaz é um andador competente, gentil em seu silêncio. 
Ele sobe ao palco com a ajuda de Bobby Militello, o saxofonista, que tem fôlego e massa suficientes para erguer o quarteto inteiro. 
Senta-se ao piano em câmera lenta. 
É a terceira e última noite, antes da partida para Chicago, onde tocará com os filhos, no dia dos pais. Sente-se bem, os dedos sempre melhores do que as costas.
Não há como não fazer um agrado a Randy Jones. Randy sempre fica triste quando ele fala de Joe Morello nas entrevistas. Não é de mentir, e Randy sabe. Os jornalistas adoram perguntar sobre o “quarteto clássico”, sobre Paul, sobre Joe. Ele sempre diz que o quarteto atual é clássico em dobro, está junto há mais tempo do que o “quarteto clássico”. Mas como não elogiar Joe Morello quando perguntam sobre ele?
Com a voz rouca, quase um fiapo, anuncia “Take Five” para encerrar. Quando Randy começa seu solo de bateria, ele se levanta do piano e assiste de pé, no meio da música, ao solo do amigo. Aos 90 anos, não é fácil erguer-se sozinho, mas ele sabe que Randy ficará feliz ao vê-lo assim, de pé, em homenagem a ele.