“Os irmãos Karamazov” é uma obra monumental e clássica, mas se o conceito de “obra prima” estivesse associado à idéia de perfeição de um trabalho redondo e equilibrado, o livro de Dostoiévski teria de ser caracterizado de outra maneira. O valor de “Os irmãos Karamazov” está na intensidade de certas passagens, seja pela força dramática de momentos da narrativa, seja pela profundidade de algumas reflexões. O livro é irregular porque desce ao vulgar – os melodramas de relações amorosas passionais – e sobe ao sublime, dos mistérios do comportamento humano às questões da morte e da transcendência.
Dois são os temas centrais do livro, para além do parricídio, que é tratado mais como crime do que como questão filosófica. A primeira é a existência ou não de Deus. Nas suas idas e vindas, o livro apresenta argumentos para crentes, agnósticos e ateus. Os diálogos e argumentos a respeito são marcantes. “O grande inquisidor”, do intelectual anti-religioso Ivan, os sermões do padre Zozima, as demonstrações de fé e bondade de Aliosha (todos muito mais interessantes do que o tedioso diálogo de alucinação de Ivan com o diabo) compõem um painel denso sobre crença e sobre Deus. Aí está uma das facetas do gênio de Dostoiévski.
Outro tema fundamental é o do livre arbítrio. Dostoiévski investiga a culpa, a questão da responsabilidade e das maneiras de punição e autopunição. O mistério de algumas passagens que descem à psicologia torturada dos personagens dá grandeza à narrativa: Ivan atormentado pela responsabilidade indireta pelo assassinato do pai; Lise, esta personagem marginal na trama, aplicando-se penas por pecados induzidos, como a imagem extraordinariamente forte do dedo preso à porta; Katerina amargurada na relação de amor e ódio por Mitya. E, sobretudo, Alyosha, carregando a pena de todos e, ao mesmo tempo, exibindo uma bondade e uma nobreza de sentimentos que, embora resvalem para o inverossímil, não deixam de encantar.
Dois são os temas centrais do livro, para além do parricídio, que é tratado mais como crime do que como questão filosófica. A primeira é a existência ou não de Deus. Nas suas idas e vindas, o livro apresenta argumentos para crentes, agnósticos e ateus. Os diálogos e argumentos a respeito são marcantes. “O grande inquisidor”, do intelectual anti-religioso Ivan, os sermões do padre Zozima, as demonstrações de fé e bondade de Aliosha (todos muito mais interessantes do que o tedioso diálogo de alucinação de Ivan com o diabo) compõem um painel denso sobre crença e sobre Deus. Aí está uma das facetas do gênio de Dostoiévski.
Outro tema fundamental é o do livre arbítrio. Dostoiévski investiga a culpa, a questão da responsabilidade e das maneiras de punição e autopunição. O mistério de algumas passagens que descem à psicologia torturada dos personagens dá grandeza à narrativa: Ivan atormentado pela responsabilidade indireta pelo assassinato do pai; Lise, esta personagem marginal na trama, aplicando-se penas por pecados induzidos, como a imagem extraordinariamente forte do dedo preso à porta; Katerina amargurada na relação de amor e ódio por Mitya. E, sobretudo, Alyosha, carregando a pena de todos e, ao mesmo tempo, exibindo uma bondade e uma nobreza de sentimentos que, embora resvalem para o inverossímil, não deixam de encantar.
O que desalenta no livro são alguns aspectos mais vulgares da narrativa. A história policial do assassinato (afinal, foi Mitya ou Smerdyakov, o filho legítimo e passional ou o bastardo ressentido e ardiloso?), o julgamento de Mitya (quase sempre chato, apesar da verve de Dostoiévski), os arroubos passionais da história de amor com Grushenka e Katerina, e até mesmo a narrativa paralela do menino moribundo Ilyusha (com seu amigo brilhante Kolya, o pai orgulhoso e a deprimente família de deficientes físicos e mentais) mais carregam do que adicionam ao livro. São meneios e voltas que compõem um universo mais abrangente sim, mas que nos levam a histórias acessórias, a reflexões de outra ordem, dissipando a força e o impacto do essencial, o mergulho na psicologia da culpa e na existência ou não do divino.
Dostoiévski foi um escritor genial, e “Os irmãos Karamazov” é uma obra e tanto. Não seria ainda maior se fosse menos prolixa e múltipla?
Dostoiévski foi um escritor genial, e “Os irmãos Karamazov” é uma obra e tanto. Não seria ainda maior se fosse menos prolixa e múltipla?